Notas de cinco anos restaurando florestas nativas

Fonte da imagem: MORFO
Tuesday 26, 2026

Em 25 de maio de 2026, a MORFO completou cinco anos.

Cinco anos construindo as ferramentas tecnológicas que ajudam empresas, fundos e desenvolvedores de projeto a restaurar florestas nativas em grande escala, com previsibilidade. A razão e o propósito de 2021 não mudaram. Mas o caminho não foi o que imaginamos no começo.

O que vem a seguir é a história. As conquistas, os erros, os aprendizados e o que achamos que vem pela frente.

Onde tudo começou

Meu pai foi garimpeiro de ouro, primeiro no Brasil, depois na Guiana Francesa. O Hugo, meu irmão, e eu crescemos nos garimpos do meu pai, em áreas onde a atividade acabava deixando o solo nu.

Brinquedo normal quando seu pai é dono de minas de ouro.
Com o meu pai. O lanche não era negociável.

25 anos depois, no fim de 2020, numa conversa de Natal, o Hugo e eu voltamos a uma pergunta antiga: por que as áreas de mineração não estavam sendo restauradas direito? A pressão estava crescendo, com a regulação apertando e os compromissos corporativos se multiplicando. Mas as empresas que buscavam uma resposta de verdade não tinham para onde ir. O trabalho era técnico, caro, demorava para amadurecer. Não existia ninguém estruturado para entregar isso.

E não era só mineração. Áreas industriais, pós-agrícolas, pastagens degradadas: todos carregavam desafios técnicos sérios, em escalas de tirar o fôlego.

Em 25 de maio de 2021, recebemos os papéis do registro. A MORFO (de "MORe FOrest" e da borboleta Morpho, claro) tinha nascido. A missão: restaurar as melhores florestas nativas em grande escala.

O que construímos primeiro

A gente começou por dois eixos.

O primeiro foi a ciência, com a parceria do IRD, INRAe e CIRAD em Montpellier (França). O objetivo era concreto: entender como as plantas interagem com microrganismos do solo para conseguir restaurar áreas severamente degradadas onde as raízes não pegam naturalmente, e selecionar o mix certo de espécies, microrganismos e nutrientes para cada bioma. Foi desse trabalho que saiu a tecnologia de encapsulamento de sementes que está por trás de cada hectare que plantamos hoje

O segundo foi a engenharia. Para restaurar ecossistemas na escala que a degradação exige, o plantio manual bate num teto muito rápido. Uma equipe treinada cobre alguns hectares por dia. Precisávamos acelerar isso muitas vezes. Então trabalhamos com parceiros para desenvolver nossos próprios drones de semeadura direta, e industrializamos a produção das cápsulas de sementes. 50 hectares por dia por drone. 180 cápsulas por minuto, cerca de 600 sementes por minuto. Uma velocidade que nada igualava, com custo viável.

A gente construiu algo que funcionava. Nosso sistema de semeadura direta por drone conseguia restaurar áreas severamente degradadas numa velocidade incomparável, com custo viável. Nas condições certas (e não em quaisquer condições), fazia maravilhas.

[vídeo restauração garimpo Amazônia]

Restauração de um antigo garimpo aluvial de ouro na Amazônia, fortemente poluído e sem vegetação. Sucesso técnico, validado pela agência ambiental três anos depois do plantio. Uma fonte de dados reutilizáveis para nós, mas não um caminho automático para escalar.

A pergunta errada

Achávamos que estávamos respondendo aos dois desafios que mais importavam para nossos clientes: custo e escala.Estávamos errados.Redução de custo, sim, todo mundo queria isso (quem não quer?!). Mas escala não era a questão. A maioria dos projetos ainda estava em fase piloto e velocidade não era prioridade naquele momento. E a gente ainda não tinha aberto os olhos para outra coisa.

Aqui no Brasil, eu aprendi a expressão arroz com feijão. O básico, confiável, bem-feito. Era isso que os compradores queriam, e eles tinham bons motivos. Há décadas, a restauração de ecossistemas vem sendo feita pela abordagem mais controlada, segundo se acredita: plantio manual de mudas em fileira. Décadas de experimentação, otimização e conhecimento acumulado por trás. Nem sempre é o melhor método em todo lugar. Nem sempre é o mais barato. Mas tem track record. E é o track record que convence um comprador a assinar.

Chegávamos com drone e fazíamos semeadura direta na área inteira, 15 a 30 espécies por hectare. O resultado se parecia mais com o que a floresta faz naturalmente, mas não casava com o que o mercado tinha sido treinado a esperar. Sem fileiras, sem métricas familiares, sem décadas de projetos comparáveis por trás. Por mais inovadora que fosse nossa abordagem, ela não passava a confiança que eles precisavam.

Bom, então enfrentamos um problema de adoção. E enfrentamos por anos. Passamos os dias provando, montando gráficos, levando gente para visitar os campos para mostrar que a técnica funcionava. 90% das perguntas que recebíamos eram sobre técnica. "Qual é a taxa de sobrevivência?" "Quantos hectares por dia?" "O que tem dentro do seedpod?". Ficamos travados num debate sobre técnica de plantio, semeadura direta por drone contra plantio manual de mudas.

Em 2024, já estávamos trabalhando com as maiores empresas brasileiras e com desenvolvedores de projeto. Contratos grandes. Problemas concretos.

Mas a escala ainda não estava lá.

Aos poucos, entendemos uma coisa que não tinha visto antes. A técnica de plantio era o como. O que faltava era o porquê.

Resolvendo a equação de risco e retorno

Conversando com muita gente boa (àqueles que vão se reconhecer, obrigado!), o quadro foi ficando cada vez mais claro. A restauração não é lenta porque a técnica de plantio não está pronta.

Ela é lenta porque, do ponto de vista de quem toma as decisões, o projeto em si parece não-bancável.

Da perspectiva de um comitê de investimento ou da alta gestão, floresta nativa continua sendo um ativo de baixo retorno e alto risco. Baixo retorno porque as receitas monetizáveis (compliance, carbono, madeira, produtos florestais não-madeireiros como cosméticos e ingredientes alimentícios, serviços ecossistêmicos…) chegam tarde, são voláteis ou não cobrem o custo de oportunidade do capital. Alto risco porque os resultados só aparecem depois de anos e uma floresta carrega todas as incertezas de um sistema natural. Enquanto essa equação fica em aberto, os projetos ficam no PowerPoint.

Então nosso objetivo evoluiu. Tínhamos que achar formas de resolver essa equação de risco e retorno. A resposta era previsibilidade. E percebemos que não dava para fazer isso de fora. Como operadores, tínhamos que assumir uma parte do risco**.** Bancos estão começando a fazer underwriting de restauração. Seguradoras estão lançando produtos paramétricos. Desenvolvedores de projeto estão assumindo garantias mezzanine que colocam os próprios balanços em risco. Se a gente quer que esse mercado exista, quem está em campo, quem coloca a semente no solo, não pode ficar de fora da conversa de risco. Alguém tem que ser responsável pelos resultados em campo. E escolhemos ser.

Na prática, isso significou duas coisas.

  • Primeiro, mudamos o que medíamos. O ponto não era mais a técnica em si. Era o sucesso do projeto como um todo, operacional e econômico.
  • Segundo, construímos modelos preditivos. Não como camada de marketing, mas como base de como precificamos e nos comprometemos com performance.

Voltamos a todos os projetos que tínhamos rodado, 24 áreas na época, e tiramos cada pedaço de dado utilizável. Empurramos a análise até onde dava para construir a MORFO Ri, nossa plataforma de gestão e previsão de projetos. Hoje, cada novo projeto afia esse loop. Já diagnosticamos 58.000 hectares e operamos mais de 21.000.

MORFO Restoration Intelligence, um motor alimentado por dados de campo para desenhar as melhores estratégias de plantio e acompanhá-las, talhão por talhão.

Concretamente, o que fazemos hoje

A MORFO opera hoje duas linhas de negócio interligadas.

Restoration Intelligence. Nossos modelos proprietários rodam uma pré-análise por satélite: áreas de interesse, riscos, estimativas de custo, zonas a descartar. O que passa pelo filtro vai para um diagnóstico em campo (drone e solo) que monta um plano de restauração, talhão por talhão. O resultado: centenas de decisões precisas por área, 30 a 50% de corte de custo em relação a uma abordagem uniforme, previsibilidade desde o primeiro dia, e um dossiê de evidências pronto para certificação desde o começo.

Operações. Preparo do solo, manejo de invasoras, desenho de plantio, mix de espécies, manutenção, monitoramento, executados camada por camada. Em uma área recente de 8.420 ha na Mata Atlântica: 7 talhões, 132 sub-talhões, cada um com seu mix e pré-atividades. Cerca de 16% escolhemos não tratar, porque a regeneração natural já estava dando conta.

Como resultado, podemos oferecer hoje um modelo de precificação baseado em performance.Não vendemos esforço. Nos comprometemos com KPIs.

Dado não é solução por si só, mas é o que nos deu confiança nos modelos para fazer isso. É previsibilidade. E é o reconhecimento de que, para esse mercado funcionar, alguém tem que assumir a responsabilidade pelos resultados. Então assumimos. Garantias de performance, com ações corretivas ilimitadas até os KPIs serem atingidos.

O que abre um novo tipo de conversa com nossos clientes mais avançados.

  • Com um cliente que tem obrigação legal de restaurar: "conseguimos baixar o preço por hectare em 30%, porque sabemos exatamente onde você não precisa intervir. A manutenção seletiva é onde o seu custo total é decidido. E cada hectare vem com seu dossiê de evidências, pronto para revisão da agência ambiental estadual ou auditoria FSC."
  • Com um fundo florestal: "a gente faz 70% do preço fixo e 30% em performance, medidos em 12 e 36 meses sobre cobertura de copa, diversidade de espécies estabelecidas, biomassa e retorno da fauna. Se a gente bater acima, divide o ganho."
  • Com um desenvolvedor de projeto: "Seu projeto não fecha a 42.000 R$ por hectare. Vamos trazer para 25.000."

O que ainda vem pela frente

Cinco anos depois, as fundações estão postas. Agora construímos em cimaA maioria dos projetos acima ainda está sendo estruturada. Uns vão fechar, outros não. Sabemos disso, e nos planejamos para isso, e se planeja para isso.E, claro, restauração tem suas surpresas, é a natureza dela.Mas o que construímos deixa essas surpresas menores, mais raras, mais fáceis de absorver.

Passamos a acreditar que o gargalo não é a tecnologia nem os dados em si, mas o que eles destravam: previsibilidade e comprometimento.É isso que permite a quem assina os cheques precificar o que está comprando e enxergar retorno.

+5 anos, em números

  • +2.140 hectares em restauração nos três biomas do Brasil (Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia)
  • 26 projetos com clientes como Suzano, Hydro, Mosaic, a Prefeitura do Rio de Janeiro, e outros que ainda não podemos citar
  • 58.000+ hectares diagnosticados em 82 talhões
  • +490 espécies nativas no nosso catálogo, com 30 a 40 espécies-chave por bioma para adaptar cada mix
  • 1.500 pessoas envolvidas na nossa rede de coleta de sementes
  • 10 programas de pesquisa com Embrapa, UFV, UFSCar, IRD, entre outros
  • 1 parceria estratégica com o Google sobre IA aplicada à restauração
  • 2 linhas de negócio integradas: MORFO Restoration Intelligence (nossa plataforma interna para diagnosticar e planejar talhão por talhão) e Operações em campo (preparo de solo, plantio, manutenção, monitoramento)
  • 1 modelo de precificação baseado em performance: não vendemos esforço, nos comprometemos com resultados. Garantias contratuais de performance, com ações corretivas ilimitadas até os KPIs serem atingidos
  • €7,6M captados em equity em novembro de 2022, €5M+ em grants de pesquisa

PS: Um agradecimento enorme para todo mundo que faz parte dessa missão, que já fez, ou que pretende fazer. O time, os parceiros, os clientes, os investidores, os curiosos, quem só acompanha, quem me ajudou a escrever e revisar esse texto (resumir cinco anos não é simples, juro). As sementes já estão na terra.

Pascal Asselin
Cofundador e Gerente geral (GM)
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