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Planejar florestas para o clima que elas vão enfrentar, não para o clima de onde vieram

Luisa Ritzmann Peceniski · 2026-03-05 · 3 minutos

Planejar florestas para o clima que elas vão enfrentar, não para o clima de onde vieram

Uma receita de bolo que não se sustenta mais

A maioria dos projetos de restauração no Brasil ainda depende do que Rebecca Montemagni, engenheira de ecossistemas florestais da MORFO, chama de "receita de bolo". A mesma lista de espécies, a mesma densidade, independentemente do local ou das condições projetadas. Uma espécie que vai bem na Bahia hoje pode não sobreviver ali em 2070.

Em uma entrevista recente ao Um Só Planeta, Rebecca explicou o problema: a restauração historicamente pressupôs que as condições do passado continuariam. Mas, com o aumento das temperaturas, a mudança nos padrões de chuva e a pressão crescente sobre o uso da terra, voltar ao que existia antes deixou de ser um alvo confiável. A pergunta não é como a floresta era, mas o que ela precisa suportar.

Um framework construído em torno das condições futuras

A resposta da MORFO é o FaBRestor (Future-Based Approach to Restoration), um framework publicado na Restoration Ecology com coautores da UFV, da UFSCar, da UFPR e do USDA Forest Service. O FaBRestor reformula a restauração como um processo orientado para o futuro. Em vez de usar linhas de base históricas fixas, ele integra três lentes temporais - legados do passado, condições do presente e projeções do futuro - para desenhar estratégias de plantio que levem em conta para onde os ecossistemas estão caminhando.

Um estudo complementar, também com coautoria de Rebecca, modela as mudanças na distribuição de espécies sob três cenários climáticos na Amazônia brasileira, usando o MaxEnt com variáveis bioclimáticas e de solo em três horizontes temporais: 2040, 2070 e 2100. Os cenários correspondem a diferentes trajetórias de emissão e uso da terra:

  • SSP1 (Resiliente): esforços significativos de sustentabilidade, baixa desigualdade, transição para energia verde
  • SSP3 (Desafio): governança fragmentada, alto crescimento populacional, cooperação internacional limitada
  • SSP5 (Alto risco): crescimento rápido movido a combustíveis fósseis, mitigação climática mínima

Para cada cenário e horizonte temporal, a ferramenta gera um índice de adequação (0.0 a 1.0) para cada espécie candidata em um determinado local. O resultado é um conjunto de mapas que mostram onde as áreas de ocorrência das espécies se expandem, se contraem ou permanecem estáveis - local por local, década por década.

Projeção de ocorrência para Handroanthus serratifolius (Ipê-amarelo) sob o cenário Resiliente (SSP1). Até 2100, a adequação cai acentuadamente em toda a Amazônia (zonas vermelhas). Captura de tela da plataforma de seleção de espécies da MORFO, última rodada do modelo em fevereiro de 2026.

O que os dados mostram

Na reportagem do Um Só Planeta, um exemplo se destaca: o Ipê-amarelo-flor-de-algodão (uma espécie nativa bastante conhecida) apresenta um índice de adequação baixo para o ano de 2100, mesmo no cenário mais otimista (SSP1). Em toda a Amazônia, os mapas mostram um aumento gradual das zonas vermelhas - áreas onde a espécie dificilmente vai persistir.

Esse é o tipo de sinal que muda as decisões de plantio. Uma espécie que hoje parece uma escolha óbvia pode ser uma aposta ruim no longo prazo. O framework revela esses riscos antes de as sementes irem para o solo.

Já orientando os projetos da MORFO

O FaBRestor não é um exercício de pesquisa. O framework já está integrado à seleção de espécies nos projetos de restauração ativos da MORFO na Amazônia e na Mata Atlântica. Para cada local, a equipe pontua as espécies candidatas em relação às condições futuras projetadas e adapta as listas de plantio de acordo.

Como Rebecca colocou na entrevista, a abordagem também vai além da modelagem de espécies. A análise em nível de local inclui o diagnóstico do solo, e a equipe trabalha com as comunidades locais desde a etapa de planejamento - não apenas para a execução, mas para a análise dos problemas e o manejo adaptativo. O conhecimento tradicional ajuda a ancorar as projeções na realidade local, o que importa para a durabilidade dos projetos no longo prazo.

Por que isso importa

A restauração que ignora as trajetórias climáticas corre o risco de produzir florestas que fracassam em poucas décadas. A mortalidade das espécies aumenta, os compromissos de carbono ficam aquém do esperado e o investimento - tanto ecológico quanto financeiro - se desgasta. A seleção de espécies orientada para o futuro não elimina a incerteza, mas a torna visível e gerenciável antes de o capital ser comprometido.