Análise

Quatro temas que decidem se um projeto de restauração sai do papel no Brasil

Pascal Asselin · 2026-10-07 · 14 minutos

Imagem de satélite de uma propriedade no Cerrado, com o perímetro em azul e a área plantável dividida em classes de manejo.

No último ano, tive a mesma conversa com várias equipes de investimento internacionais. Elas querem um projeto de restauração nativa no Brasil, e por boas razões: o maior potencial de terra do mundo, uma ciência florestal que já acumula mais de 50 anos de provas, redes de coleta de sementes estruturadas, um ecossistema de viveiros e um mercado de carbono doméstico sendo construído em lei.

Mas vou adiantar o final: nenhuma dessas equipes começou um projeto ainda.

Por quê? Pelo menos quatro temas voltam em todas as conversas. Certamente existem outros. Mas são esses quatro que ocupam a maior parte do tempo hoje.

1. O preço por hectare

A restauração nativa no Brasil costuma ser cotada entre 2.000 e 6.000 dólares por hectare. Pode ficar bem acima disso quando as condições são difíceis, e bem abaixo em áreas onde a regeneração natural assistida faz a maior parte do trabalho.

Duas coisas diferentes preocupam um comitê aqui: o quanto o preço é alto e o quanto se pode confiar no número. A boa notícia é que as duas melhoraram.

Sobre o preço em si: o custo cai quando o método é adaptado talhão por talhão, em vez de aplicado de forma uniforme. Existem muitas ferramentas disponíveis, da regeneração natural assistida à semeadura direta com ou sem drones, plantio de mudas, plantio multimodal, nucleação e enriquecimento. Na MORFO, por exemplo, temos hoje mais de 130 protocolos de restauração validados em campo, e temos tantos porque a combinação certa muda dentro de uma mesma propriedade. Em uma área plantável de 9.019 hectares no Cerrado, o plano definiu 605 talhões em três classes de manejo, cada uma com seu próprio preparo de solo e seu próprio calendário de manutenção.

Sobre a confiança: hoje já é possível produzir cedo uma faixa com piso e teto, que vai se estreitando conforme o trabalho avança. Uma pré-análise roda sobre todo o perímetro a partir de satélite, cobrindo situação legal, chuva em anos secos, uso do solo, declividade, afloramento rochoso e pressão de fogo e desmatamento no entorno. O drone voa apenas onde o satélite mostra algo que precisa ser investigado ou confirmado. As equipes vão a campo apenas onde uma decisão ainda depende de uma amostra de solo ou de uma checagem de espécies. Nossos modelos cruzam dessa forma cerca de vinte fontes de dados e comparam cada perímetro com uma base de mais de 60.000 hectares já analisados. ** A faixa que sai dessa análise é construída sobre aquela área específica, e não sobre uma média de mercado**, e cada etapa de campo a estreita.

Nada disso torna barata uma área difícil. Mas dos quatro temas, este é o que mais vi avançar. Hoje todo mundo concorda que um diagnóstico inicial da terra é indispensável. Não era assim três anos atrás.

2. O contrato com o operador

Poucos desenvolvedores de projeto plantam os próprios hectares. O trabalho vai para operadores de implantação, e o contrato entre os dois define a maior parte da economia do projeto.

Hoje, a maioria desses contratos paga pela atividade: hectares preparados, mudas plantadas, rodadas de manutenção concluídas. É fácil de verificar e fácil de faturar.

Isso também coloca as duas partes em lados opostos em cada hectare. A receita do implantador cresce com o volume de trabalho executado, então o interesse dele é fazer mais, e às vezes fazer mais devagar. O dono do projeto paga por esse mesmo volume, então o interesse dele é a menor intervenção que ainda atinja a meta. Quem desenha o plano acaba decidindo a economia da outra parte.

O problema fica mais sério quando um talhão falha. Em um contrato por atividade, o trabalho foi entregue conforme especificado e a fatura já foi paga, então o custo de refazer fica com o dono do projeto. Quem escolheu o método não arca com nenhuma consequência dele.

Foi por isso que mudamos nossos próprios contratos. O que queremos é sair de um mercado que paga pela hora ou pela diária de trabalho e passar a ser remunerados pelo resultado. Por isso as metas ecológicas entram no contrato, e não atingi-las passa a ser problema nosso, e não do cliente: ações corretivas por nossa conta até que as metas sejam atingidas. É um pouco ousado, e sim, estamos assumindo um risco.

Esse compromisso só vale algo se a evidência por trás dele se sustentar, o que na prática significa monitorar a área inteira em cada etapa, em vez de trabalhar por amostragem. Um talhão que falha no primeiro ano e só aparece na auditoria do terceiro ano vira replantio, ou até um projeto inteiro novo. O mesmo talhão identificado na sexta semana é uma correção.

3. A alocação de risco

O risco fica em lugares diferentes dependendo do tipo de projeto. Três deles aparecem em quase toda discussão. O primeiro é financeiro. Os outros dois andam juntos, e é neles que trabalhamos.

Deixo de lado, de propósito, os riscos que todo mundo já tem na lista: fogo, gado entrando nos plantios jovens, segurança fundiária. Eles são reais, às vezes os maiores em uma determinada área, e merecem uma discussão própria. Só não são onde vejo confusão hoje.

O risco financeiro está na ausência de garantia. Renato Rosenberg, responsável pelas concessões no Serviço Florestal Brasileiro, disse de forma direta: uma floresta é, ao mesmo tempo, um ativo econômico e um passivo financeiro. Não pode ser dada em garantia e, enquanto cresce, não gera caixa, então um projeto que não fatura nada por anos não tem garantia a oferecer a um credor nem receita para pagar dívida. Esben Brandi, que lidera o desenvolvimento de negócios do BTG Pactual Timberland Investment Group, completou o raciocínio em outro artigo no LinkedIn: o dinheiro raramente fica como dinheiro, ele se acomoda no valor dos ativos, e é assim que o apoio à agricultura acaba embutido no preço da terra. ** O valor se acomoda onde está a renda, e uma floresta jovem ainda não tem nenhuma.**

A mudança deste ano veio do lado público. Na última Brazilian Climate and Carbon Conference, Marcus Santiago, do BNDES, apresentou uma segunda fase do programa ProFloresta+: até R$ 6 bilhões para comprar créditos de restauração, meta de 60.000 hectares, financiamento para os vencedores a cerca de 2,3% ao ano em 25 anos, com quatro a cinco anos de carência antes da primeira amortização, e, como próximo passo, project finance lastreado nos próprios recebíveis de carbono do projeto. Um prazo longo com carência é exatamente do que o fluxo de caixa de uma floresta precisa.

Os outros dois sempre aparecem juntos. O risco ecológico, de a floresta não se estabelecer como o plano previa. E o risco operacional, de equipes, máquinas e logística não entregarem o que o plano previa.

São difíceis de separar, porque em campo produzem a mesma imagem: um talhão onde nada se estabeleceu. Esse talhão pode significar que o mix de espécies estava errado para aquele solo, que o preparo de solo foi feito na profundidade errada, que uma rodada de manutenção foi pulada ou que a chuva não veio. A primeira causa é de quem desenhou o plano, as duas seguintes de quem executou a operação, e a última não é de ninguém. ** Então a primeira tarefa, quando algo dá errado, é estabelecer qual dos dois riscos ocorreu**, e isso exige evidências reunidas antes de a discussão começar, e não depois.

É por isso que monitoramos a área inteira em cada etapa, em vez de trabalhar por amostragem, e registramos o que foi decidido, e por quem, sempre que o plano muda em campo. Separar os dois riscos, e deixar por escrito quem responde por cada um, é um dos temas centrais das nossas conversas com parceiros. O resultado ecológico fica do nosso lado, com ações corretivas por nossa conta. O resultado operacional fica com a empresa que mobiliza as equipes e as máquinas. Um credor que assume risco sobre um recebível de carbono precisa de alguém que responda pela existência das toneladas, e esse alguém não pode ser todo mundo ao mesmo tempo.

4. A equipe em campo

Todo mundo sabe que a presença local importa. O difícil é encontrar os operadores que a têm, e verificar isso antes de assinar.

Raízes locais significam algo concreto: conhecer as comunidades que vivem no entorno da área, conhecer os microclimas e o calendário local, e já ter operado de fato naquele território. Uma rede pode ser construída. A experiência daquele território específico só se acumula trabalhando nele. Thibault Sorret, que dirige a Equitable Earth, um padrão de carbono ativo no Brasil, disse na mesma conferência que, depois de vários anos no país, ainda se surpreende com premissas que valem em todo lugar e se revelam erradas em uma área específica. E acrescentou o que isso significa para um comprador: o projeto é vendido em um horizonte de quarenta anos, e o que o comprador quer mesmo saber é quais das empresas em volta da mesa ainda estarão trabalhando naquele território daqui a um ano.

Na porteira da fazenda, a mesma coisa soa mais simples. Richard Smith, diretor executivo do Instituto PCI, em Mato Grosso, descreve quatro perguntas que todo produtor faz hoje a quem aparece na porteira com um projeto de restauração para vender: o que você quer, de onde você é, onde já fez isso antes e quanto eu vou ganhar. Sem uma resposta sólida, olho no olho, pode voltar para casa.

Há um segundo motivo pelo qual as pessoas em torno de um projeto importam, e ele começa pelas sementes. A restauração nativa precisa de dezenas de espécies, e elas não estão à venda no Mercado Livre. São coletadas, na época certa, por pessoas que vivem perto da área. Catalogamos 490 espécies nativas, e o abastecimento por trás delas é uma rede local, e não um fornecedor. Então as comunidades em torno de um projeto já estão dentro do seu caminho crítico. Um projeto que constrói essa rede paga menos pelas sementes, perde menos tempo com conflitos e termina com vizinhos que têm um motivo para querer a floresta ainda de pé daqui a dez anos. Isso não é um capítulo social acrescentado ao orçamento. É uma das linhas que decidem se o orçamento fecha. Chamamos isso de infraestrutura habilitadora: tudo o que precisa existir em torno de um projeto antes que o primeiro hectare possa ser plantado.

A empresa que lê a terra raramente é a empresa que mobiliza trezentas pessoas e uma frota de máquinas, e realmente não acredito que a escala venha de um único ator fazendo tudo. Em breve vamos iniciar nosso 30º projeto no Brasil, em três biomas. Nossa convicção é que um investidor que está começando aqui precisa dos dois lados cobertos: alguém que responda pelo resultado ecológico e um operador industrial que responda pela execução. Assumimos o primeiro. Trazemos o segundo para o projeto, em vez de fingir que somos ele.

Onde a conversa está hoje

Esses são os quatro temas, e cada um deles renderia uma semana inteira. O que eu quis fazer aqui foi mostrar onde cada um está hoje, e não encerrá-los.

Mas vamos terminar com um fato. Algo paradoxal está acontecendo neste mercado. Ele agora tem casos reais de sucesso e, mesmo assim, começar um projeto ficou mais difícil. Tiago Ricci, sócio e diretor da Systemica Net Zero, desenvolvedora brasileira de projetos de carbono, trouxe na mesma conferência um número que guardo: vender um crédito levava dois dias de conversa, e um contrato de offtake hoje leva de doze a dezoito meses de due diligence. A régua subiu, e acho que isso é uma boa notícia. Um mercado que faz perguntas mais difíceis é um mercado se preparando para escalar. Mas isso significa que só a intenção já não basta para tirar um projeto do papel.

Por isso, deixo a questão em aberto. Se você está olhando para o Brasil e um desses quatro temas é o que está travando o seu projeto, terei prazer em conversar sobre isso.

Uma observação sobre as fontes. Nossas conversas com fundos e outros players são confidenciais, então não pude usá-las. Em vez disso, me apoiei no que profissionais do setor disseram publicamente no palco da Brazilian Climate and Carbon Conference, em São Paulo, organizada pela NBS Brazil Alliance.