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Como incluir o risco climático no PRAD e no plano de fechamento de mina

Quentin Franque · 2026-10-30 · 8 minutos

Um operador de campo da MORFO acompanha um drone sobrevoando uma área de restauração no Brasil.

Nesta estação, empresas de mineração chegaram até nós pelo nosso estudo sobre o El Niño. Nenhuma delas começou falando de plantio. Perguntaram primeiro sobre água e chuva: quando a estação chuvosa vai se firmar, qual será a vazão do rio nos meses secos e se o plano de fechamento que estão atualizando deveria tratar do clima. A sede já tinha começado a pedir um plano de resiliência climática, e quem estava com a caneta na mão era a equipe de meio ambiente.

A resposta curta: o PRAD e o plano de fechamento dizem o que precisa ser recuperado, mas é a chuva que decide quando o plantio vai pegar. Para a estação chuvosa 2026-27, nossa análise do El Niño indica chuvas que se firmam com duas semanas ou mais de atraso em ** 451 municípios brasileiros**, e cerca de ** 35 dias de atraso em Paragominas**, no Pará. Incluir o clima no PRAD significa definir, talhão por talhão, a janela de plantio, o plano de replantio e os fatores climáticos que ficam fora do compromisso de resultado.

Este artigo trata do que muda em um PRAD quando a estação chuvosa começa tarde, e do que não muda. Ele não substitui o estudo climático que um plano de fechamento pode exigir. Esse estudo cobre balanço hídrico, efluentes e eventos extremos em toda a mina, e é um trabalho diferente do nosso.

O que o PRAD e o plano de fechamento já exigem

No Brasil, a obrigação de recuperar a área degradada pela mineração vem da Constituição Federal (artigo 225, parágrafo 2º). O Decreto 97.632 de 1989 torna o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas, o PRAD, parte do licenciamento da mineração, e a Agência Nacional de Mineração (ANM) regulamenta o plano de fechamento de mina pela Resolução 68 de 2021.

Esses textos definem o que deve ser recuperado e como o resultado é verificado. Nos textos que li, nenhum pede explicitamente um cenário climático. Os órgãos ambientais estaduais e as condicionantes da licença acrescentam suas próprias exigências, e por isso a resposta para cada mina está na sua própria licença.

Mesmo assim, o clima entra no PRAD por uma porta: o cronograma. Todo PRAD tem um cronograma, e todo cronograma pressupõe uma estação chuvosa normal. Quando a sede pede resiliência climática, é esse cronograma que transforma o pedido em algo que o órgão ambiental pode verificar.

Quanto as chuvas podem atrasar perto da sua mina

Nosso estudo sobre o El Niño analisou 44 estações chuvosas passadas e dividiu o Brasil em 11.763 células de cerca de 28 km. Em seguida, ponderou essas estações pelas probabilidades que o Climate Prediction Center dos Estados Unidos (NOAA) atribui ao El Niño deste verão: no boletim de outubro de 2026, 81% de chance de um evento muito forte entre dezembro e fevereiro.

O resultado pode ser consultado município por município na página El Niño 2026:

  • Início atrasado. Em 451 municípios, as chuvas podem se firmar duas semanas ou mais depois do habitual.
  • Menos chuva. Em Paragominas, as chuvas se firmam cerca de 35 dias mais tarde e a estação traz cerca de 22% menos chuva do que em uma estação normal, na mediana do cenário.
  • Uma contagem conservadora. Um município sem ligação mensurável entre o El Niño e a sua chuva nunca é contado.

São medianas de um cenário com uma faixa de variação, não uma previsão. Uma estação pode cair de um lado ou do outro da mediana, e a página mostra essa faixa para cada lugar.

Em termos operacionais, a consequência é simples. Se uma campanha do PRAD está prevista para novembro e as chuvas só se firmam em meados de dezembro, um mês da janela se perde antes da primeira semente. Escrevi no início do ano sobre o que acontece quando se perde a janela de plantio: o talhão espera um ano inteiro.

Quando as chuvas se firmam na estação 2026-27 em comparação com um ano normal, mediana do cenário El Niño da MORFO. Fonte: CHIRPS, ERA5-Land, NOAA CPC, análise MORFO.

A ordem dos talhões: o que entra primeiro, o que espera

Uma frente de mina raramente tem um solo só. Em um projeto de mineração que a MORFO conduz no Pará, o diagnóstico leu o terreno em três cenários: solo orgânico reaplicado, estéril nivelado, e estéril não nivelado com taludes. Grande parte da frente era estéril totalmente exposto.

Essa distinção definiu o ritmo. A primeira semeadura, em abril de 2024, teve resposta limitada no estéril exposto e mostrou que o solo era o fator limitante. O segundo plantio, em dezembro de 2024, testou a correção do solo em parcelas pareadas. A terceira campanha, em janeiro e fevereiro de 2026, priorizou espécies de cobertura e correção no estéril antes de diversificar.

Em uma estação chuvosa curta, eu aplicaria a mesma lógica ao cronograma:

  • Os talhões com mais chance entram primeiro. O solo orgânico reaplicado e os talhões mais protegidos ocupam as primeiras semanas de uma janela atrasada, porque conseguem se estabelecer com a chuva que resta.
  • Os talhões onde o solo ainda precisa ser construído esperam pelas árvores. No estéril exposto, a janela vai para a correção e para as espécies de cobertura, e as árvores ficam para a estação seguinte.
  • O replantio é planejado, não descoberto. Cada talhão recebe uma data e uma linha de orçamento para uma segunda passada caso a primeira falhe, definidas antes da estação.

Essa é uma leitura da nossa experiência de campo, não uma regra do PRAD. Mas ela transforma um cenário climático em uma decisão que a equipe de meio ambiente consegue defender diante do órgão ambiental.

Taludes, pilhas e solo exposto em um primeiro trimestre seco

A escolha do método muda quando o primeiro trimestre da estação chuvosa é seco. Cada opção reage de forma diferente a uma estação curta:

  • A hidrossemeadura cria cobertura rápida em taludes íngremes e estruturas de drenagem, onde a erosão é o primeiro risco. Ela precisa de chuva logo depois da aplicação.
  • A semeadura direta, manual ou por drone, coloca mais sementes no solo com custo menor por hectare e alcança talhões onde as máquinas não entram. No projeto do Pará, corretivos, sementes e cápsulas foram lançados por drone, com mais de 15 toneladas de insumos em uma única campanha.
  • As mudas dão vantagem onde um caminhão-pipa alcança o talhão, e precisam dessa água quando as chuvas atrasam.

A escolha é feita talhão por talhão, com declividade, acesso e água como critérios (comparação dos métodos). Em terreno minerado hostil, o primeiro trabalho é segurar o solo, não plantar uma floresta pronta. Em uma antiga mina de ouro aluvionar na Guiana Francesa, o primeiro projeto da MORFO, a área passou de solo exposto e ácido para ** 81% de cobertura vegetal em quatro anos**, com 588 árvores por hectare em média. A cobertura veio primeiro e as árvores vieram depois (o projeto na Guiana Francesa).

Antiga mina de ouro aluvionar em Crique Korossibo, na Guiana Francesa: a vegetação voltou onde o solo era exposto e ácido.

Um compromisso de resultado que não carrega o risco climático

Um cenário climático também muda o que um contrato de restauração deve prometer. Duas práticas se sustentam em um ano como este.

Uma trajetória datada com marcos de medição, em vez de uma meta única em data fixa. A trajetória indica a cobertura vegetal esperada em seis meses, um ano e dois anos, com uma faixa em cada etapa. Uma estação atrasada desloca o primeiro marco. Ela não anula o contrato.

Fatores externos nomeados e excluídos. Clima e El Niño, incêndio, gado de propriedades vizinhas, paralisações causadas por terceiros. Escrever essa lista no contrato separa o que o operador controla do que ninguém controla.

Excluir o clima não elimina o trabalho. O plano ainda precisa dizer o que acontece quando as chuvas atrasam: quais talhões mudam de data, quais recebem uma segunda passada e quanto isso custa. Na MORFO, a posição é direta: se o plano foi seguido e a floresta não veio, a responsabilidade é nossa. É um risco, e nós o assumimos porque o plano é construído para a estação realmente esperada, não para uma estação média.

Como isso fica em um PRAD de mineração

  • Um cronograma por talhão. Cada talhão recebe a sua janela, o seu método e a sua ordem de entrada, a partir da leitura do El Niño para o município e da leitura do solo do talhão.
  • A área inteira monitorada. Satélite em 100% da área a cada etapa, drone onde o satélite sinaliza algo, campo onde uma decisão exige uma amostra. Um talhão que se desvia aparece em semanas, não no terceiro ano.
  • Ação corretiva no talhão que se desviou. O replantio vai para onde a leitura indica, não para a área inteira.

Esse cronograma é o centro do diagnóstico e do plano que entregamos às empresas com obrigação de restauração.

Um plano de fechamento raramente falha pela lista de espécies. Ele falha pelo cronograma, quando uma campanha encontra uma estação que não chegou na hora. Neste ano, a estação pode ser lida com antecedência, município por município, e o PRAD que usar essa leitura vai perder menos talhões do que aquele que espera para ver.

Se você está atualizando um PRAD ou um plano de fechamento nesta estação e o cronograma é a parte que preocupa, terei prazer em conversar sobre isso.

Nota sobre as fontes: as empresas de mineração citadas no início não são nomeadas, e suas perguntas são relatadas em termos gerais. Os números de chuva vêm do estudo El Niño 2026 da MORFO, um cenário construído com as probabilidades da NOAA, não uma previsão. As referências legais servem de orientação e não substituem a leitura da licença de cada mina.

Perguntas frequentes

O PRAD precisa considerar as mudanças climáticas? Os textos federais que regem o PRAD e o plano de fechamento não pedem explicitamente um cenário climático, nos textos que lemos. Os órgãos estaduais e as condicionantes da licença podem pedir. Na prática, o clima entra pelo cronograma, que pressupõe uma estação chuvosa normal.

É possível plantar uma área minerada fora da estação chuvosa? Com mudas, sim, desde que haja irrigação e um caminhão-pipa que alcance o talhão. Sementes e hidrossemeadura precisam de chuva logo depois de lançadas, e fora da estação o risco de falha é muito maior.

Se o plantio falhar por causa da seca, quem é o responsável? Depende do contrato. Um contrato que nomeia o clima como fator externo e prevê uma janela de replantio resolve a questão antes da estação. Sem isso, a discussão acontece depois da falha.

Hidrossemeadura, semeadura direta ou mudas em talude: como escolher? Pela declividade, pelo acesso e pela água. A hidrossemeadura segura rapidamente taludes íngremes, a semeadura direta alcança talhões onde as máquinas não entram, as mudas servem para talhões com acesso à água. Em uma mesma frente de mina, os três métodos podem conviver.

Quanto custa incluir o clima no plano? Depende da área, dos solos e do acesso, por isso não damos números antes do diagnóstico. O diagnóstico entrega o cronograma por talhão com o custo de cada opção.