Planejar florestas para o clima que elas vão enfrentar, não para o clima de onde vieram

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6 de março de 2026

Uma receita de bolo que já não funciona

A maioria dos projetos de restauração no Brasil ainda se baseia no que Rebecca Montemagni, engenheira de ecossistemas florestais da MORFO, chama de "receita de bolo". Mesma lista de espécies, mesma densidade, independentemente da localização ou das condições projetadas. Uma espécie que prospera na Bahia hoje pode não sobreviver lá em 2070.

Em entrevista recente ao Um Só Planeta, Rebecca explicou o problema: a restauração historicamente assumiu que as condições passadas se manteriam. Mas com o aumento das temperaturas, mudanças nos regimes de chuva e pressão crescente sobre o uso da terra, voltar ao que existia antes não é mais uma meta confiável. A questão não é como a floresta era, mas o que ela precisa conseguir suportar.

Um framework construído em torno das condições futuras

A resposta da MORFO é o FaBRestor (Future-Based Approach to Restoration), um framework publicado na Restoration Ecology com coautores da UFV, UFSCar, UFPR e USDA Forest Service. O FaBRestor reformula a restauração como um processo voltado para o futuro. Em vez de se apoiar em referências históricas fixas, ele integra três lentes temporais - legados passados, condições presentes e projeções futuras - para desenhar estratégias de plantio que considerem a trajetória dos ecossistemas.

Um estudo complementar, também coautorado por Rebecca, modela deslocamentos na distribuição de espécies sob três cenários climáticos na Amazônia brasileira, utilizando MaxEnt com variáveis bioclimáticas e de solo em três horizontes temporais: 2040, 2070 e 2100.

  • SSP1 (Resiliente): esforços significativos de sustentabilidade, baixa desigualdade, transição energética verde
  • SSP3 (Desafiador): governança fragmentada, alto crescimento populacional, cooperação internacional limitada
  • SSP5 (Alto risco): crescimento rápido movido por combustíveis fósseis, mitigação climática mínima

Para cada cenário e horizonte temporal, a ferramenta gera um índice de adequação (0,0 a 1,0) para cada espécie candidata em um determinado local. O resultado é um conjunto de mapas mostrando onde as áreas de distribuição se expandem, se contraem ou permanecem estáveis - local por local, década por década.

Projeção de distribuição para Handroanthus serratifolius (ipê-amarelo) no cenário Resiliente (SSP1). Até 2100, a adequação da espécie cai significativamente em grande parte da Amazônia (zonas em vermelho). Captura de tela da plataforma de seleção de espécies da MORFO, último modelo executado em fevereiro de 2026.

O que os dados mostram

Na reportagem do Um Só Planeta, um exemplo se destaca: o Ipê-amarelo-flor-de-algodão (uma espécie nativa conhecida) apresenta um índice de adequação baixo para o ano 2100, mesmo no cenário mais otimista (SSP1). Na Amazônia, os mapas mostram um aumento gradual das zonas vermelhas - áreas onde a espécie tem pouca chance de persistir.

Esse é o tipo de sinal que muda decisões de plantio. Uma espécie que parece uma escolha óbvia hoje pode ser uma aposta ruim a longo prazo. O framework traz esses riscos à tona antes que as sementes entrem no solo.

Já integrado aos projetos da MORFO

O FaBRestor não é um exercício acadêmico. O framework já está integrado à seleção de espécies nos projetos ativos de restauração da MORFO na Amazônia e na Mata Atlântica. Para cada local, a equipe avalia as espécies candidatas em relação às condições futuras projetadas e adapta as listas de plantio de acordo.

Como Rebecca explicou na entrevista, a abordagem também vai além da modelagem de espécies. A análise no nível do local inclui diagnóstico de solo, e a equipe trabalha com comunidades locais desde a fase de planejamento - não apenas na execução, mas na análise do problema e na gestão adaptativa. O conhecimento tradicional ajuda a ancorar as projeções na realidade local, o que importa para a durabilidade dos projetos a longo prazo.

Por que isso importa

Uma restauração que ignora trajetórias climáticas corre o risco de produzir florestas que fracassam em poucas décadas. A mortalidade de espécies aumenta, compromissos de carbono não são cumpridos, e o investimento - ecológico e financeiro - se deteriora. A seleção de espécies voltada para o futuro não elimina a incerteza, mas a torna visível e gerenciável antes que o capital seja comprometido.

Luisa Ritzmann Peceniski
Chefe de Design e Redes Sociais
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