Methodology

El Niño 2026-27 e restauração: planejar para a próxima estação e para 2100

Pascal Asselin · 2026-11-05 · 6 minutos

Um punhado de sementes de árvores nativas de diferentes espécies, sobre um saco de sementes misturadas.

A estação de plantio 2026-27 começou no Brasil com um dos El Niños mais fortes já registrados. A NOAA aponta 100% de chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro de 2026. Nossa análise do Brasil mostra que, no Pará, 88% do estado deve ter uma estação chuvosa mais quente e mais seca ao mesmo tempo. Em 451 municípios, as chuvas podem se firmar duas semanas ou mais depois do normal.

Uma estação como esta põe à prova um hábito ainda comum na restauração brasileira: a mesma lista de espécies e o mesmo calendário, em qualquer lugar e em qualquer ano. Rebecca Montemagni, engenheira de ecossistemas florestais da MORFO, chama isso de "receita de bolo". Este artigo explica por que passamos a planejar cada projeto em dois horizontes, a próxima estação e o fim do século, e o que isso muda no campo.

Duas perguntas por trás de uma decisão de plantio

Um projeto de restauração precisa se sustentar em dois climas ao mesmo tempo.

  • O clima da próxima estação decide se as mudas sobrevivem aos primeiros meses. Ele define quando preparar o solo, quando plantar e quanto replantio prever no orçamento.
  • O clima das próximas décadas decide se a floresta que cresce continua adequada ao lugar. Ele define quais espécies plantar.

As duas perguntas usam dados e escalas de tempo diferentes. Elas levam à mesma decisão: o que vai para o solo, onde e quando.

O horizonte longo: quais espécies ainda estarão de pé em 2100

O FaBRestor (Future-Based Approach to Restoration) é uma metodologia publicada na Restoration Ecology pela MORFO, com coautores da UFV, da UFSCar, da UFPR e do USDA Forest Service. Ela avalia cada espécie candidata diante do clima projetado para 2040, 2070 e 2100, em três cenários (SSP1, SSP3, SSP5), com modelos MaxEnt baseados em variáveis bioclimáticas e de solo. Descrevemos a metodologia no artigo sobre planejar florestas para o clima futuro.

Algumas escolhas conhecidas aparecem como apostas fracas no longo prazo. O ipê-amarelo-flor-de-algodão, uma árvore nativa muito conhecida, mostra baixa adequação em toda a Amazônia até 2100, mesmo no cenário mais otimista. Uma espécie que cresce bem hoje pode ser a escolha errada para uma floresta feita para durar.

Já usamos essa metodologia para selecionar espécies em projetos na Amazônia e na Mata Atlântica.

O horizonte curto: quando e como plantar nesta estação

O El Niño Explorer responde à outra pergunta. Para qualquer lugar do Brasil, ele mostra o atraso possível no início das chuvas, quanto a estação pode ficar mais quente e qual é o mês de plantio mais arriscado. Ele divide o país em 11.763 células de cerca de 28 km e simula a estação 2026-27 cem mil vezes por célula, a partir das probabilidades da NOAA de 8 de outubro e de 44 estações chuvosas registradas desde 1981.

Os números podem deslocar um calendário inteiro. Em Curuá, no Pará, as chuvas podem se firmar cerca de 74 dias mais tarde do que em um ano neutro, e a janela útil de plantio pode cair de cerca de 154 dias para 79. Cada dado é o valor mais provável dentro de uma margem de variação, não uma previsão do tempo.

Onde o El Niño pode atingir o Brasil em 2027: estação chuvosa 2026-27 em relação às normais sazonais. Análise MORFO.

O que muda no campo

"Todas as nossas operações são calendarizadas a partir do período chuvoso: o que fazemos antes do plantio e o que fazemos depois. Se o El Niño desloca esse período, tudo precisa se deslocar junto. No Norte, as plantas vão perder mais água com o calor e receber menos chuva. É aí que a janela de plantio pesa mais." - Rebecca Montemagni, engenheira de ecossistemas florestais, MORFO

Na prática, nossas equipes fazem seis ajustes:

  • Reprogramar o calendário. O preparo de solo, o plantio e a manutenção seguem a nova janela de chuva, e não a data do contrato.
  • Escolher espécies mais rústicas. As espécies tolerantes a temperaturas altas ganham mais espaço no mix onde a estação deve ficar mais quente.
  • Proteger o solo do calor. A adubação verde e a cobertura do solo criam um microambiente mais fresco e retêm a umidade, o que reduz a evapotranspiração onde o calor é mais forte.
  • Amortecer os veranicos. O hidrogel aplicado no plantio ajuda as mudas a atravessar os veranicos após o plantio.
  • Plantar mudas mais resistentes. As mudas que ficam mais tempo no viveiro chegam ao campo mais rústicas.
  • Prever o acompanhamento desde o início. O monitoramento e o replantio são planejados, com os seus custos, antes da primeira muda ir para o campo.

Integrante da equipe MORFO em uma área em regeneração.

Nenhum desses ajustes é novo. O que muda é que os dados agora indicam, lugar por lugar, quais deles cada estação exige.

Um plano, duas escalas de tempo

A lista de espécies vem do horizonte longo. O calendário e os ajustes de campo vêm do horizonte curto. Um projeto que olha apenas para 2100 pode perder a primeira coorte de mudas em uma estação chuvosa atrasada. Um projeto que olha apenas para esta estação pode plantar uma floresta que não vai mais se adequar ao lugar daqui a cinquenta anos.

"Uma estação desafiadora muda a forma de plantar, não a decisão de plantar." - Grégory Maitre, CEO, MORFO Brasil

A diferença entre os projetos vai aparecer nas taxas de sobrevivência, e essas taxas se decidem antes do plantio: nas espécies escolhidas e na data escolhida.