O efeito esperado do El Niño 2026-27 na estação chuvosa do Brasil
Quentin Franque · 2026-10-30 · 6 minutos

A estação de plantio começou no Brasil ao mesmo tempo que um dos El Niños mais fortes já registrados. Em 8 de outubro de 2026, o Climate Prediction Center da NOAA apontou 100% de chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro, e 81% de chance de ele manter essa intensidade entre dezembro e fevereiro. Desde 1981, apenas três episódios chegaram a esse nível: 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Para quem planta, o número nacional importa menos do que o local. Um El Niño forte não tem o mesmo efeito no Pará e no Rio Grande do Sul. Para ver o que ele deve fazer em cada lugar, dividimos o Brasil em 11.763 células de cerca de 28 km e simulamos a estação chuvosa 2026-27 cem mil vezes em cada uma. Este artigo resume o resultado e o que a análise não diz.
O calor é o sinal mais consistente
Em 84% do Brasil, mais de 700 milhões de hectares, a estação chuvosa deve ficar pelo menos 0,5 °C acima da média de cada lugar desde 1981. Em 14% do país, pelo menos 1 °C acima. São 3.289 municípios com pelo menos 0,5 °C a mais, e 459 com pelo menos 1 °C a mais.
A temperatura reage ao El Niño em quase todo o território. A chuva, não.
A chuva divide o país por volta de 23°S
- 38% do território tende a ficar mais seco. Em 648 municípios, a estação chuvosa pode perder 20% ou mais da chuva.
- 4% tende a ficar mais úmido, quase todo no Sul.
- 58% não mostra ligação mensurável entre o El Niño e a chuva da estação.
A linha de corte fica por volta da latitude 23°S: mais seco ao norte, mais úmido ao sul. Os 58% importam tanto quanto o resto. Onde a ligação entre o El Niño e a chuva local foi fraca ou inexistente nas últimas 44 estações, a análise não mostra número, em vez de preencher a lacuna.

Onde o calor e a seca se cruzam
O cruzamento das duas leituras dá o quadro completo:
- 37% do Brasil deve ficar mais quente e mais seco ao mesmo tempo, em 1.111 municípios. É o cenário mais desafiador para quem planta, e ele se concentra no Norte e no Nordeste.
- 47% deve ficar mais quente, sem alteração mensurável da chuva.
- 9% sente outro efeito: mais ou menos chuva sem chegar a 0,5 °C de aquecimento, ou um aquecimento mais leve.
- 7% não tem ligação mensurável com o fenômeno.
As regiões não vão viver a mesma estação. No Norte, 55% da região deve ficar mais quente e mais seca. Onde o efeito é mensurável, a Amazônia perde 16% da chuva da estação, cerca de 237 mm, e fica 0,9 °C mais quente. No Nordeste, 47% da região deve ficar mais quente e mais seca, e a Caatinga perde 22% da chuva. No Cerrado, a perda é de 15%, cerca de 177 mm, com 0,8 °C a mais. No Sul, o sinal se inverte: 97% do Pampa tende a receber mais chuva, cerca de 29% a mais.
Lugares, não médias
- Calçoene, no Amapá: 36% menos chuva, cerca de 780 mm, o equivalente a 54 dias de uma estação chuvosa normal.
- Barra do Quaraí, no Rio Grande do Sul: 52% mais chuva, a 3.800 km de distância, na mesma estação.
- Curuá, no Pará: as chuvas podem se firmar cerca de 74 dias mais tarde do que em um ano neutro, e a janela útil de plantio pode cair de cerca de 154 dias para 79.
- Marabá, no Pará: nos anos de El Niño muito forte, um plantio feito em outubro recebeu 32% menos chuva nos três primeiros meses, e um replantio em março e abril enfrentou uma queda de 36%.
Entre as regiões de plantio, o maior atraso no início das chuvas é o de Ilhéus-Itabuna, na Bahia, com 43 dias. Em seguida vêm Santarém, com 41 dias, e Altamira, com 34.

Como a análise foi construída
Três fontes alimentam o modelo: CHIRPS para a chuva (Climate Hazards Center, Universidade da Califórnia em Santa Barbara), ERA5-Land para a temperatura do ar (ECMWF e Copernicus) e o índice ONI da NOAA, que classifica cada estação pela intensidade do El Niño. Cada célula tem 44 estações chuvosas registradas desde 1981. A estação chuvosa de cada lugar corresponde aos seus cinco meses mais chuvosos, com o centro entre dezembro e fevereiro. A estação 2026-27 foi então simulada cem mil vezes por célula, com a intensidade do El Niño sorteada a partir das probabilidades publicadas pela NOAA em 8 de outubro.
O que a análise não diz:
- Ela descreve cenários regionais, não uma projeção para uma propriedade ou para um dia específico. Cada dado é o valor mais provável dentro de uma margem de variação.
- O El Niño não é o único fator. O Atlântico tropical pesa bastante no Nordeste e no norte da Amazônia, e não entra nesse cálculo.
- Ela cobre apenas o clima, não a produtividade agrícola, os preços ou o risco de fogo.
- Ela usa o boletim da NOAA de 8 de outubro. O próximo sai em 12 de novembro.
O que isso muda na decisão de plantio
Uma muda plantada no início da estação chuvosa depende da chuva dos três primeiros meses, antes de as raízes alcançarem a água mais profunda. O calor aumenta a demanda de água da planta, e a falta de chuva reduz a oferta. Quando as chuvas se firmam com três semanas de atraso, o pedido de sementes, o cronograma do viveiro, as equipes de campo e o contrato precisam acompanhar, como mostramos no artigo sobre o custo de perder a janela de plantio.
Por isso os resultados estão abertos no El Niño Explorer, em português e em inglês. Qualquer pessoa pode buscar um município e ver, mês a mês, a temperatura e a chuva esperadas, o atraso possível no início das chuvas e o mês de plantio mais arriscado.
"Uma estação desafiadora muda a forma de plantar, não a decisão de plantar. O que me preocupa é uma equipe sair na data de sempre e encontrar o solo seco, com o calor já instalado." - Grégory Maitre, CEO, MORFO Brasil
A pergunta útil nesta estação não é se o El Niño será forte. É quando as chuvas vão se firmar em cada talhão, e se o calendário de plantio parte dessa data ou da data do contrato.