Analysis

El Niño 2026-27: 934 milhões de hectares devem ficar mais quentes e mais secos ao mesmo tempo

Luisa Ritzmann Peceniski · 2026-11-02 · 6 minutos

Mapa das Américas, da Europa e da África mostrando onde a estação chuvosa 2026-27 deve ficar mais quente, mais seca ou mais úmida com o El Niño.

O Climate Prediction Center da NOAA aponta 100% de chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026, e 83% de chance de ele chegar a +2,5 °C ou mais nesses três meses. Isso superaria todos os El Niños registrados desde 1950. Para um sinal climático, essas probabilidades são excepcionalmente claras. O efeito no território é bem menos uniforme.

Mapeamos o efeito provável do El Niño na próxima estação chuvosa nas Américas, na Europa e na África, em células de 28 km por 28 km, sobre 8,1 bilhões de hectares de terra. Em 43% dessa área, a estação mostra uma ligação mensurável com o El Niño, na temperatura, na chuva ou nos dois. Em 934 milhões de hectares, uma área maior que os Estados Unidos continentais, a estação deve ficar pelo menos 0,5 °C mais quente e mais seca ao mesmo tempo. Este artigo mostra onde, e onde o mesmo evento empurra no sentido contrário.

Onde o El Niño 2026-27 deve atingir duas vezes: mais quente e mais seco. Américas, Europa e África, células de 28 km. Análise MORFO.

A África Austral sofre um duplo impacto

No Zimbábue, 97% do país deve ficar pelo menos 1 °C mais quente, e quase todo o território pode perder 20% ou mais da chuva da estação. Harare pode perder 32% da chuva e ganhar 1,2 °C. Lusaka pode perder 24%.

O cruzamento de calor e seca se estende por toda a região. A Namíbia (83% do território), Botsuana (78%) e a África do Sul (55%) devem ficar mais quentes e mais secas ao mesmo tempo. Em Botsuana, todo o país deve ficar pelo menos 1 °C mais quente.

O norte dos Andes, a América Central e o Caribe ficam mais secos

  • Peru: 98% do território deve ficar pelo menos 0,5 °C mais quente. Arequipa pode perder 35% da chuva, com 1,4 °C a mais.
  • Costa caribenha da Colômbia: Barranquilla e Santa Marta podem perder um terço da chuva.
  • América Central: 41% de Honduras e 35% da Nicarágua podem perder 20% ou mais da chuva. Manágua pode perder 31%, a Cidade da Guatemala 17%.
  • Caribe: Kingston pode perder 35%.
  • México: 42 milhões de hectares devem ficar mais quentes e mais secos, incluindo Puebla, com 23% menos chuva.

O Brasil concentra um terço da área mais quente e mais seca

O Brasil é o maior bloco: 327 milhões de hectares, 35% de toda a área mais quente e mais seca mapeada. Em 93% do país, a estação mostra uma ligação mensurável com o El Niño, e 37% do território deve ficar mais quente e mais seco ao mesmo tempo. O país se divide por volta de 23°S, mais seco ao norte e mais úmido ao sul. Detalhamos os resultados brasileiros, região por região, no nosso artigo sobre a estação chuvosa no Brasil.

Outras regiões tendem a ficar mais úmidas

O mesmo evento empurra algumas regiões no sentido contrário:

  • África Oriental: dois terços do Quênia tendem a ficar mais úmidos, com cerca de 40% mais chuva em Nairóbi e 34% em Mombaça.
  • Bacia do Rio da Prata: 77% do Uruguai e 46% do Paraguai tendem a ficar mais úmidos, com 42% mais chuva em Assunção.
  • Sudoeste dos Estados Unidos: Los Angeles pode receber 56% mais chuva, e San Diego 49%.

Mais chuva não é boa notícia por padrão. Para um projeto de plantio, pode significar solo encharcado, máquinas sem acesso aos talhões e erosão em solo exposto.

A Europa fica quase toda fora do sinal

Os dados mostram uma ligação mensurável com o El Niño em apenas 6% da Europa nesta estação. Na maior parte da Europa, a próxima estação vai depender de outros fatores.

Como a análise foi construída, e o que ela deixa de fora

A área foi dividida em 136.397 células de cerca de 28 km. Para cada célula, a chuva e a temperatura de cada estação chuvosa desde 1981 foram comparadas com a intensidade do El Niño, o que dá 44 estações de registro. A estação chuvosa de cada célula corresponde aos seus cinco meses mais chuvosos. A próxima estação foi então simulada cem mil vezes por célula, com a intensidade do El Niño sorteada a partir das probabilidades publicadas pela NOAA em 8 de outubro de 2026. Fontes: CHIRPS (Climate Hazards Center, Universidade da Califórnia em Santa Barbara) para a chuva, ERA5-Land (ECMWF e Copernicus) para a temperatura e o índice ONI da NOAA.

Uma célula só entra na conta quando a ligação entre o El Niño e a chuva ou a temperatura local é clara ou moderada. Onde ela é fraca ou inexistente, a análise diz isso, em vez de preencher a lacuna. Por isso, 57% da área mapeada não mostra ligação mensurável.

O que a análise não diz:

  • Cada número é o valor mais provável, com uma margem de variação. Nenhum deles é uma previsão do tempo para um dia específico.
  • Ela cobre apenas o clima, não a produtividade agrícola, os preços ou o risco de fogo.
  • Ela não cobre a Ásia nem a Oceania, onde o El Niño também pesa bastante.
  • Ela usa o boletim da NOAA de 8 de outubro. O próximo sai em 12 de novembro.

Por que uma empresa de restauração mapeou três continentes

Uma muda depende da chuva dos três primeiros meses. Quando essa chuva chega atrasada, ou chega com mais calor, a data de plantio, o mix de espécies e o orçamento de replantio mudam. Construímos essa análise para os nossos próprios projetos na Mata Atlântica, no Cerrado e na Amazônia, e a abrimos no El Niño Explorer para que qualquer pessoa possa buscar uma cidade e ver, mês a mês, a temperatura e a chuva esperadas, o atraso possível no início das chuvas e o mês de plantio mais arriscado.

O mapa não diz a ninguém se deve plantar. Ele diz em que estação se está plantando, e essa é a informação que ainda falta na maioria dos calendários de plantio.